Marilu

Marilu achava tudo chato e sem graça: as nuvens bobas, as montanhas cinzas. Andava sempre aborrecida em seu mundo monótono e sem cor, até que, certo dia, viu uma garota carregando uma inacreditável lanterna multicolorida. Decidida a comprar uma igual, foi em busca da loja vermelha que a garota lhe indicara. Lá encontrou os entusiasmados e desafinados Pimpolhos, que a desconcertaram com suas canções. No dia seguinte, ansiosa, finalmente escolheu sua lanterna: a mais colorida de todas. Qual não foi sua surpresa, porém, quando o novo brinquedo começou a ficar cinza… Voltou à loja decidida a protestar, gritar e espernear. Mas os Pimpolhos lhe revelaram que o problema não estava nas coisas, mas em sua maneira de olhar…

Marilu é uma narrativa bem-humorada em que Eva Furnari joga com a simbologia das cores para provocar uma guinada na perspectiva da personagem: não é o mundo que é sem graça, é ela, que, com seu olhar mal-humorado e pessimista, torna as coisas cinzentas e monótonas. Aquilo que motiva sua transformação, porém, não é de modo algum um discurso moralizante: é o humor, a possibilidade de rir dos absurdos da vida, que cativa a menina.

Ponto de vista

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Grande, pequeno, alto, baixo. Direita, esquerda, acima, abaixo…
Como saber o que é grande? Ou, então, o que é pequeno? O que é alto? Ou baixo? Maior ou menor?
Como distinguir a direita e a esquerda, o longe e o perto, sem que haja uma referência, uma comparação?

Quem sabe se, com exemplos,
Explicar fica melhor,
E essa confusão tão grande,
Começa a ficar menor…

Com humor e leveza, os versos brincam com o significado das palavras e criam comparações, mostrando que as aparências enganam e que tudo depende de você, do jeito que você vê.

Atrás da porta

Em Atrás da porta, somos apresentados a um grande casarão, antiga morada de dona Carlotinha, uma senhora que a vida inteira foi apaixonada por livros. Quando ela morreu, o casarão, de tão grande que era, foi dividido em dois, passando a abrigar, de um lado, a sua família e o seu neto Pedrinho, e do outro a Escola Dona Carlotinha de Araújo Cintra.
Logo no início, somos convidados a conhecer Pedrinho e suas lembranças… Quando sua avó era viva, uma das coisas que ele mais gostava de fazer era ficar no quarto dela, ouvindo as mirabolantes histórias que ela lia para ele – contos de lobos, de fadas, de piratas e de tudo mais que se possa imaginar. Essas lembranças eram tão boas que, mesmo depois da morte de dona Carlotinha, Pedrinho continuou brincando em seu quarto, remexendo em suas coisas e, principalmente, procurando por aqueles incríveis livros que ela lia para ele.
Foi numa dessas investidas que encontrou uma porta nunca vista antes. Uma porta que dava para um cômodo misterioso que, para a sua surpresa, estava repleto dos antigos livros de dona Carlotinha. O garoto ficou maravilhado e decidiu manter sua descoberta em segredo dos pais. Passou a visitar o quarto todas as noites, onde se perdia em infindáveis leituras.
Aos poucos, Pedrinho decidiu compartilhar seu achado com um ou outro amigo… depois mais um… mais outro… E em pouco tempo, um grande grupo de crianças estava fazendo visitas secretas e noturnas à sua casa…
Mas, afinal, o que era esse cômodo tão misterioso? Por que abrigava tantos livros? Por quanto tempo Pedrinho conseguiria mantê-lo em segredo?
Com uma escrita leve e fluente, Ruth Rocha praticamente pega o leitor pela mão, conduzindo-o palavra a palavra, a um inesperado desfecho… Um livro que valoriza a importância e o prazer da leitura, com belíssimas ilustrações de Walter Ono, que retrata de maneira sensível as lembranças de Pedrinho e o clima de mistério que se instala em torno da enigmática “passagem secreta”.

Arlequim de Carnaval

27620997_ggMas o verdadeiro destaque desta obra de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima é o carnaval recifense, com muito frevo e maracatu.
Povoado de cantigas e referências tradicionais da cultura nordestina, o livro conta a história de Arlequim, um folião abusado que brinca com o destino de todos a sua volta. Faz o patrão de palhaço, foge da esposa como o diabo da cruz, e ainda cria mil confusões no romance entre Pierrô e Colombina.
Durante os dias do carnaval, Pierrô e Colombina se apaixonam, mas não revelam um ao outro suas verdadeiras identidades, “para não quebrar o encanto”. Mas os dois amantes não resistem e pedem ajuda ao amigo Arlequim, que inventa logo uma história: diz a Pierrô que Colombina é uma rainha, e a Colombina que Pierrô é um rei. Não chega a ser uma mentira: Pierrô é o rei da dança e Colombina, a rainha de maracatu. O casal, porém, entende tudo errado e pensa viver um amor impossível, que só pode durar os três dias de carnaval.
Quando o carnaval chega ao fim, cabe ao leitor descobrir se as confusões de Arlequim conseguem unir ou separar os foliões apaixonados. Com ilustrações de Bruna Assis Brasil, Arlequim de Carnaval é um livro infantil, mas que aborda temas para todas as idades, além de ter um formato simples de peça de teatro, que pode ser encenada em qualquer lugar.

A gaiola

A Gaiola_MIOLO_limpo_novo-FINAIS.inddEste belo livro de Adriana Falcão, fala do encontro entre uma menina e um passarinho. Explorando os diferentes pontos de vista dos personagens, a autora constrói uma história aparentemente simples, mas que aborda com surpreendente profundidade questões acerca do amor e seus desdobramentos.
Tudo tem início quando, certo dia, um Passarinho machucado cai na casa de uma Menina. Sem pensar duas vezes, ela rapidamente toma para si a missão de cuidar do animal e, para isso, não poupa esforços. Entre curativos e carinhos, a Menina, em pouco tempo, passa a amar o Passarinho, que lhe retribui o sentimento.
Quando o Passarinho, finalmente, se vê curado, a Menina entende que é chegada a hora de soltá-lo. Mas depois de tanto amor cultivado, nem ele e nem ela querem mais se separar. E, para a surpresa e alegria de ambos, quando, com o coração apertado, ela disse “voa!”, ele rapidamente respondeu: “Menina, me prende numa gaiola?”
A felicidade apossou o coração de ambos. Assim teriam sempre um ao outro! A Menina seria só do Passarinho e o Passarinho seria só da Menina! Mas… afinal, é possível prender o amor?
É nesse momento que a história de Adriana Falcão sofre uma reviravolta. A gaiola que supostamente traria segurança, rapidamente se transforma em tormento – uma amarra que constantemente questiona a liberdade de suas escolhas. E assim, como num piscar de olhos, o amor entre Menina e Passarinho se desdobra em facetas difíceis de compreender e aceitar, como o medo, o ciúme, a rivalidade, a insegurança, entre tantas outras.
Por meio da relação de afeto entre uma criança e um animal, facilmente reconhecível pelo universo infantil, a autora introduz com coragem e delicadeza a ambiguidade dos sentimentos que o amor carrega em si. Vale ressaltar também as belas ilustrações de Simone Matias, que embalam o leitor na subjetividade dos personagens, traduzindo em imagens os seus oscilantes estados de espírito.
Por fim, a Menina e o Passarinho compartilham com o jovem leitor uma verdade que talvez seja um pouco dolorida – não existem gaiolas que possam garantir a permanência de um amor. Mas existe o momento presente, existe a alegria compartilhada e existe a coragem de seguir o coração.