Marinela

Marinela
Marinela é uma garota alegre que mora num castelo com a avó e a tia, e que aguarda a chegada de um príncipe que vai lhe pedir em casamento. Pelo menos é o que dizem lá no sertão onde fica o castelo — que é, na verdade, uma casa de taipa. É nesse sertão cheio de vida e de cantoria, no qual o povo trabalha e se diverte sobre a terra batida, fazendo versos de improviso, que a menina espera, espera… Mas nada do príncipe chegar. Aos poucos, a espera vai ficando para trás. Marinela, menina encantada pelo mundo ao redor, vai crescendo e descobrindo que é dona de seu próprio tempo. E que não precisa de príncipe nenhum para viver plena e feliz.
Com imagens e versos de extrema delicadeza, Luciana Grether dá vida a personagens que representam a exuberância singular do sertão brasileiro. Lançando luz a um espaço e a um viés tão pouco retratados na literatura para crianças, a autora elabora um precioso elogio à força da sabedoria feminina e da cultura do interior do país. Palavras como “feminismo” ou “emancipação” não aparecem em parte alguma na narrativa. Este é, porém, um livro feminista — e um elogio à emancipação, à força e à criatividade das mulheres.
E é, também, uma história sobre o tempo. Sobre a sabedoria e a intuição — tão femininas — de quem aprende a lidar com os ritmos da natureza e da vida. De quem substitui a espera passiva e subserviente pelo labor e pela alegria de pertencer a uma cultura e a um lugar. Marinela é uma personagem rara nas narrativas do gênero. Negra, pobre, habitante do sertão, esse lugar tão negligenciado, representa todas as meninas brasileiras cheias de vigor e de sensibilidade, que traçam sua própria história à revelia de príncipes ou reinos encantados.

Marinela espiava pela fresta, o tal príncipe ela não via.
Dançava com esperança e desfazia a longa trança.
O tempo que passava virava reza.
O vento levava e o movimento que o vento fazia
era sinal de novos tempos. Tempos de poesia. 

Marinela se dedicou a cantar versos de improviso,
cultivar rosas sem se espetar com espinhos,
desenhar pela estrada, inventar os caminhos.
Sem pressa aprendeu que ela era dona do tempo.
E que sublime o tempo é!

Quando esfria lá fora, ela esquenta a fogueira.
Quando é calor de verão, ela vai pro poço da ribeira.

Quando das árvores caem folhas no chão,
ela arruma sua cama de esteira.
Porque o tempo, mais do que lembrança, é presença.

 

Escrito por Luciana Grether – Editora Zit

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