Nícolas

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Quem nunca desejou ter super poderes para resolver problemas? Nícolas, com sua imaginação fértil, deseja ser o Super Nico para lidar com os contratempos da sua vida. Até que um dia ele percebe que esse super herói só existe na sua cabeça e que, sim, é possível ser respeitado e querido sendo simplesmente Nícolas.

A escritora Regina Machado fez uma resenha para Nícolas

Quem nunca se sentiu humilhado, envergonhado, com medo ou raiva de alguém e não foi capaz, na hora, de responder à altura? Quem nunca descobriu depois uma resposta super boa para uma pessoa que teve o poder de nos deixar mudos e sem ação? Porque será que muitas vezes nos sentimos impotentes para expressar nossa vontade para os outros?
Que poder é esse que a esses outros conferimos? Perguntas assim me ocorreram depois de eu ter lido Nícolas e começado a pensar em como apresentá-lo aos leitores nessa resenha.
Por serem situações já tantas vezes vividas por todo mundo, a gente acompanha com gosto os episódios e os conflitos do Nícolas. A gente pode se lembrar dos inúmeros enfrentamentos diante das imposições e constrangimentos de fatos da vida, do que não faz sentido, do autoritarismo, da falta de sinceridade, da dificuldade de comunicação. O que fazer com o despertar do amor que nos deixa sem fala? Como perder o medo e enfrentar tudo de um outro jeito?
Nos contos tradicionais, as possibilidades de transformação acontecem durante o trajeto de aprendizagem do personagem. A mudança é resultado da experiência das decisões, dúvidas e dos mais variados tipos de oportunidades para atravessar e vencer diversos desafios. Nos contos contemporâneos escritos por autores que vivem nesse mundo de hoje, as crianças e a imaginação se situam no plano psicológico da experiência humana.
Nícolas não é um príncipe, é um menino como tantos outros, que tem medos cotidianos, como cada um de nós. Então sua transformação se dá num “passe de mágica”, enquanto nos contos tradicionais ela se opera como obra da arte ancestral da Fantasia, por meio dos inúmeros artifícios simbólicos do Encantamento.
Nícolas é encantador na sua fragilidade e na sua força, na poesia das imagens com que se desenham os espaços de seu horizonte, no silencioso e delicado enamorar-se do seu coração.
O encanto está na singeleza e expressividade das imagens que contam a história tão bem quanto as palavras. Preto, branco e vermelho figuram sombras, sustos e deslumbramentos. Imagens não convencionais de ambientes internos e externos que nos são tão familiares podem nos levar ao encontro da vontade de sermos maiores, de descobrir nosso espaço, nossa voz e o surpreendente despertar do coração batendo por alguém, bem vermelho.
O vermelho também conta essa história de uma maneira muito especial, especialmente quando está ausente nas páginas que antecedem a mais importante descoberta de Nícolas.
Regina Machado é professora, contadora de histórias e doutora em arte e educação pela USP. 

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