A importância da fantasia no universo infantil

f2

Acreditar em Papai Noel, Fada do Dente, Coelho da Páscoa e super-heróis ajuda a criança a compreender o mundo.

“Desde bem cedo o mundo das fantasias corre paralelo à realidade. Para a criança, soltar a imaginação funciona como uma escola, onde ela aprende a lidar com sensações novas, a compreender sentimentos, a descobrir o seu papel na vida real.” (Daniela Ruiz de Mendonça)

Os personagens das histórias de fantasia são fundamentais para a formação de valores como a coragem, a humildade e a ética no imaginário infantil. Ou seja, toda criança precisa experienciar esses universos paralelos (muitas vezes autocriados), essenciais para a formação dentro de sua comunidade como atuante e transformador da realidade. A possibilidade de conseguir o inatingível e de combater o inaceitável, inserida, mesmo que implicitamente, em todas as histórias de fantasia, bem como a coragem de vencer os medos e enfrentar grandes desafios, é simbolizada pelo herói, que atua como um agente mediador entre a criança e os dois ‘mundos’, o real e o imaginário; e os heróis com ‘fragilidades’ de humanos são ainda mais próximos das crianças, que se identificam e se inspiram.

Apesar de inerente a todo e qualquer ser humano, é no universo infantil que a fantasia mais ganha ‘concretude’, já que é totalmente espontânea e isenta de culpas e necessidade de explicações. Ainda sobram resquícios do caráter utilitarista da fantasia na formação moral e disciplinar das crianças, que tenta fazê-las ‘perceber’ quais são as atitudes ‘certas’, que devem ser tomadas, bem como as ‘erradas’, que devem ser evitadas, mas as histórias também são usadas na aprendizagem dos códigos éticos e sociais que a comunidade (adulta) usa para interagir entre si.

f1

Segundo o coordenador do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Naim Akel Filho, valer-se do imaginário na criação dos pequenos é mais que recomendável. “O cérebro infantil fantasia antes de ter raciocínio lógico. Um dos estágios de organização cerebral é coordenado pelo processo natural de fantasiar”, afirma o especialista, citando estudos do epistemólogo Jean Piaget: “A fantasia é uma forma de você ajudar a criança a organizar seus afetos e as percepções de si mesmo e do mundo”.

Para Akel Filho, lançar mão de fábulas para transferir valores sociais é empregar uma linguagem que o pequeno está apto a processar. Por exemplo, falar sobre a importância da amizade lendo o célebre trecho de O Pequeno Príncipe em que a raposa explica o que é cativar e criar laços. “Isso é muito legal, muito saudável. É utilizar códigos linguísticos que um cérebro em desenvolvimento tem competência para entender. Jesus Cristo fazia isso ao contar parábolas: transformava lições sofisticadas em linguagem compreensível para o povo.”

A professora das áreas de letramento literário e educação infantil da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Elisa Maria Dalla-Bona concorda que o incentivo à fantasia é favorável ao crescimento: “Estimular a imaginação não é tirar a criança da realidade. É dar meios para que ela possa entender o mundo que a cerca”. A inventividade é inerente à infância e se manifesta o tempo todo. Como quando um menino monta no cabo de vassoura e faz de conta de que é um cavalinho, compara.

“A verdade nua e crua pode ser muito agressiva para uma mente imatura”, afirma Akel Filho. A realidade é descoberta naturalmente, através dos meios de comunicação, na escola ou com os amiguinhos, e fica tudo bem. “A fantasia jamais é mentira. Não é enganar. É usar uma forma de comunicação mais simples. Várias gerações de pessoas ouviram a história da cegonha e não sofreram grandes traumas por isso.”

O ideal, de acordo com ele, é ir acrescentando informações compatíveis ao nível de compreensão da criança à medida que ela cresce. Como exemplo, o psicólogo cita o temido momento em que os pais se deparam com a pergunta: “Como são feitos os bebês?”. “A mãe diz ao filho pequeno que o papai coloca uma sementinha na barriga dela, e ele se satisfaz com essa explicação. Quando adquirir uma maturidade maior, ele questionará de novo, sinalizando que está na hora de subir o nível do esclarecimento”, diz Akel Filho.

A lição é nunca despejar sobre a criança explanações muito sofisticadas, que podem chocar e ter efeito inibitório. “A substituição da fantasia por informação objetiva deve ser gradativa, acompanhando o desenvolvimento do cérebro infantil. Você vai emparelhando a imaginação com uma explicação mais intelectual até a criança saciar sua curiosidade sobre aquele assunto” aconselha o psicólogo. “Todo mundo conhece adultos que acreditaram nesses personagens na infância e não viraram bobos”, afirma a professora de literatura. Para ela, esses seres são como “muletas” na vida das crianças. Conforme crescem, elas não precisarão mais deles, e irão abandoná-los. “Não é necessário contar a verdade, porque com a maturidade a criança se liberta. Deixe tudo acontecer a seu tempo, da forma mais natural possível. A última coisa que um adulto deve fazer é destruir a fantasia.”

Os vilões dos contos de fada, como a bruxa e o gigante, não têm somente o papel de antagonizar com os personagens principais. Eles ensinam os pequenos a lidar com sensações assustadoras, afirma a professora das áreas de letramento literário e educação infantil da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Elisa Maria Dalla-Bona. “É muito positivo quando a criança sente medo e ansiedade ao ouvir uma história, porque é uma maneira de ela elaborar esses sentimentos.”

As maldades da ficção aterrorizam, podem provocar choro e xixi na cama, diz Elisa, mas não se materializam. Por mais que se tema o bicho papão, ele nunca sairá de baixo da cama ou de dentro do armário. “A fantasia é uma forma de viver o medo no campo simbólico e de adquirir elementos para enfrentá-lo”, resume. “Experimentar terror e susto e aprender a processar esses estímulos prepara a criança para viver no mundo real, que é cheio de perigos.”

O medo ruim, de acordo com ela, é aquele que paralisa. É o tipo de sensação provocada por personagens como o Homem do Saco, por exemplo, a que os pais recorrem quando não querem que os filhos fiquem na rua. “O medo paralisante é o pior medo que tem, ele não te impulsiona a uma ação de enfrentamento, só produz insegurança.”

Rubem Alves, escreveu que “Fantasia é uma tela de Monet: o que foi, transfigurado pela imaginação. Fantasia é obra de arte. Dentro de cada um mora um artista. Mas mesmo os fotógrafos sabem que uma foto sem fantasia não serve para nada”, ou seja, todo e cada indivíduo produz ‘artisticamente’ a realidade, na medida em que nunca a deixamos do mesmo modo como a recebemos, pelo menos não internamente.

f3

 

Anúncios

Um comentário sobre “A importância da fantasia no universo infantil

  1. Sonegar à infância o direito subjetivo da fantasia significa castrá-la da sua criatividade.
    Subestimar o potencial infantil, relegando-o aos hábitos perniciosos dos adultos, é o mesmo que lhe decretar um existência sem esperança de evolução espiritual.
    O abandono da infância aos percalços e vicissitudes no tempo presente é lhe retirar, por antecipação, a felicidade presente e impedi-la de ter esperança no futuro.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s