Nós

nos_FIXONo tempo em que as pessoas ainda nasciam em repolhos e as bicicletas voavam, vivia Mel, uma menina que estava sempre rodeada de borboletas onde quer que estivesse. Acontece que aquilo que podia parecer lírico era, para ela, um tormento, já que os habitantes da cidade de Pamongas insistiam em zombar da garota por conta de seus acompanhantes alados.
Quando ouvia os xingamentos, ela baixava a cabeça tentando não chorar e corria para longe para que ninguém visse suas lágrimas.
Certo dia, em vez de sentir vontade de chorar, sentiu foi um repuxo no pé: seu dedinho tinha dado nó! E um nó bastante danado, impossível de desatar. E não parou aí. Cada vez que a menina ouvia uma zombaria, nascia um nó novo: na perna, nas mãos, na garganta. Quando o sétimo nó apareceu, bem na ponta do nariz, para qualquer um ver, ela achou que já era demais e resolveu sair da cidade disfarçada de geladeira viajante, com direito a pinguim e tudo.
O primeiro nó se desfez quando ela dançou de alegria ao ver como tudo era lindo de cima das montanhas. O segundo nó desmanchou quando a menina deu o nó no rabo de uma vaca e depois pediu desculpas. O terceiro nó se desfez depois que ela fugiu numa bicicleta voadora, para que um garoto não notasse suas borboletas e seu nó no nariz. Quando o menino elogiou as borboletas, ela começou a chorar pra valer e o nó na garganta se desfez. E a menina acabou por descobrir que na cidade onde o garoto vivia todo mundo tinha nós, e ninguém zombava de suas borboletas. Era ali, afinal, que ela queria viver.

Trata-se de uma narrativa lírica e delicada que se debruça sobre o sentimento de inadequação doloroso que muitos de nós sentimos no decorrer da infância e da adolescência, quando a lei da “normalidade”, em geral, se coloca de maneira bastante intransigente e cruel. Eva Furnari lembra-nos como reprimir as emoções pode criar um acúmulo de nós bastante apertados, e como aquilo que nos torna esquisitos aos olhos dos outros pode ser justamente o que nos torna especiais e únicos.

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